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Antúlio Madureira: 35 anos fazendo um mundo mais artístico e musical

Sua colaboração passa pelo teatro, a dança, a música; une culturas; resgata a arte popular; e transpõe as barreiras do erudito

Existe uma necessidade natural no ser humano de se sentir pertencente a algum grupo, de fazer parte de algum lugar, encontrar nas características destes a própria identidade. O orgulho de ser de uma terra repleta de belas paisagens, gente alegre, rica manifestação cultural está arraigado no brasileiro e aflora ainda mais quando em contato com outros povos. Fazer esse sentimento ganhar dimensão é a luta de apaixonados pela arte, como Antúlio Madureira. Há 35 anos, por meio do teatro, da dança, da música, busca levar, ao brasileiro, o conhecimento da História do país. Incansável pesquisador, propaga a cultura, propiciando à população caminhos para se expressar, se integrar, despertar para novas descobertas, abrindo um amplo leque de desenvolvimento.

A partir dessa consciência, de conhecer suas origens, para gerar aprendizado, e do desejo de fazer a identidade local ser valorizada Brasil a fora, a família Madureira construiu uma história de grande contribuição à cultura brasileira, sobretudo, a pernambucana. Dentre outros movimentos, presentearam o Estado com o Balé Popular do Recife, fundado por André Madureira em 1977; e o Bloco da Saudade, concretizado por Zoca Madureira e Marcelo Varella, em 1973. Para quem ainda não sabe, o Balé Popular é uma das maiores referências de resgate às nossas raízes culturais, tendo apresentado os festejos e folguedos populares nordestinos ao mundo, em forma de espetáculo de dança, teatro e música. O Bloco da Saudade é um dos mais tradicionais blocos líricos pernambucanos, criação fictícia de Edgard Moraes, ilustrada numa marcha carnavalesca. Este deu permissão aos Madureira de fazê-lo existir e utilizar a música como hino, desde que o bloco passasse em sua casa antes do desfile.

Nascido em Natal – RN, Antúlio mudou-se criança para a Capital do Frevo, desenvolvendo trajetória artística junto aos irmãos, tendo iniciado como passista no Balé Popular, posteriormente, diretor musical dessa companhia, além de integrar grupos, como Trio Romançal Brasileiro e Quinteto Armorial. Possui várias formações acadêmicas, entre elas, Violão Erudito e Licenciatura em Música. Das artes cênicas, vivenciadas desde a infância, do contato com os mais diversos folclores da região e do dom de esculpir música, percebendo um mundo feito de sons, surgiu o multiartista Antúlio Madureira, hoje consagrado em carreira solo.

Em alguns momentos, solta a voz, dança, reverencia as manifestações populares, homenageia ícones da cultura nordestina, como o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, no novo show “O Passo no Sertão”. Em outro instante, faz ao mesmo tempo o solo e todos os acompanhamentos da música, tirando som dos objetos mais improváveis, como latas, vidros de remédios etc., dando vida a instrumentos inusitados. Ora realiza show intimista, tocando a “Ave Maria”, de Schubert, num serrote ou a inesquecível “Cavaleiro do Sol”, de sua autoria, tema de abertura do filme e do seriado “O Auto da Compadecida”, na cabala. Ora apresenta espetáculo festivo com onze músicos e bailarinos em palco aberto. Leva milhares de foliões a caírem no “passo” da “Ema”, grande sucesso inspirado nos autos do bumba-meu-boi ou a se esbaldarem de animação percorrendo os mais de 30 metros da misteriosa Cobra.

 

Dono de um show para cada época do ano, Carnaval, São João etc., além de espetáculos personalizados de acordo com a atmosfera do evento, de feiras de artigos de construção a exposições de artes, Antúlio gravou quatro CDs e tem um DVD a caminho. Conhecido como um virtuoso por quatro continentes, encantou plateias em eventos de conceito internacional, como o Festival de Montreaux, na Suíça, e o Free Jazz, no Brasil, sendo presença cativa em programações nacionais e regionais, em todo o país. Questionador, cria e recria. Toca a 5ª e a 9ª sinfonia, de Beethoven, ao som de frevo; e “Bolero”, de Ravel, no ritmo de maracatu. “A ideia é aguçar a curiosidade de quem não está acostumado com o erudito, com outras culturas; encontrar canais para despertá-los, ao se reconhecerem na arte”, disse Antúlio em entrevista exclusiva cedida gentilmente ao Lidão.

Lidão: 35 anos de trajetória artística.  Fale um pouco sobre essa contribuição para a cultura pernambucana?

Antúlio: A família Madureira é de Natal. Algumas das tradições de lá, como as características de alguns blocos líricos, vieram fazer parte do Carnaval pernambucano, pelo intermédio da gente. Zoca e Marcelo Varella materializaram o “Bloco da Saudade”, evocado por Edgard Moraes, na marcha “Valores do Passado”. Eu nasci numa família de maestros, atores, bailarinos. Meu pai era de rádio e incentivava a música. Eu vim para o Recife ainda criança. Minha trajetória artística desenvolveu-se junto com o Balé Popular do Recife. Este partiu de um movimento natural, propagado dentro da comunidade.

A gente tinha experiência em teatro infantil. Ariano Suassuna, na época Secretário de Cultura do Recife, propôs aprofundarmos uma pesquisa das danças locais, caboclinhos, bumba-meu-boi… A ideia era ter um balé tradicional para mostrar nossas raízes ao mundo, como as companhias russas. Apresentamos um espetáculo no Teatro Santa Isabel, em 1977, que foi um sucesso. Daí em diante, fomos ganhando os palcos, realizando turnês e firmando nossa contribuição, mobilizando a comunidade em diversos eventos para difundir a arte. Por exemplo, fazíamos a Feira do Frevo, demonstrando o ponto de partida da dança. Chico Science e muitos outros costumavam frequentá-los em busca de conhecimento.

Eu procuro compilar elementos dessas expressões e elaborar uma fórmula que eu possa levar aos palcos. “A Ema”, eu fui buscar nos autos do bumba-meu-boi, que provém do teatro antigo, da Comédia Dell´arte. O povo mantém viva a tradição, ao mesmo tempo que vai transformando, criando os folguedos. A música faz parte do “Perré Bumbá”, meu segundo disco, lançado em 1998, bem direcionado ao Carnaval, trazendo frevo, maracatu, ciranda, além do caboclinho e do bumba-meu-boi, que deram nome ao mesmo.

Antes, já havia gravado o “Teatro Instrumental”, em 1993, no qual associei minha pesquisa sobre a cultura popular com meus experimentos instrumentais, a cabala, o serrote, o garrafone e outros. Também gravei “Mourama”, em 1998, abrangendo do ciclo junino ao natalino, com uma linha melódica voltada para os mouros, passando pelas quadrilhas, polcas, cirandas e até uma releitura de um frevo para o ritmo do forró. “No Meio do Mundo”, em 2006, foi o CD mais recente. Neste, brinco com a fusão de culturas. “Bolero”, de Ravel, é uma composição ternária. O maracatu tem quatro tempos, é quaternário. Reproduzindo Ravel no ritmo dos batuques da nossa terra, surge um maracatu manco.

Lidão: A Música, para Antúlio Madureira:

Antúlio: Tive formação em Violão Erudito e Licenciatura em Música. Existe uma teoria que explica que todo o universo é composto de sons. Isso é Física. Eu investigo os timbres existentes em todas as coisas. Eu corto, reposiciono, combino. Intenciono mostrar às pessoas que elas sempre podem construir o novo a partir dos objetos presentes. Na Música, até mesmo na instrumental, você busca elementos para dizer algo. Às vezes, com um único instrumento, você é mais tocado do que com algo grandioso, como uma orquestra. De um jeito ou de outro, eu tento tocar o coração das pessoas, fazê-las despertar. Certa vez, Gilberto Gil me disse: “a sua música é para pensar”. O propósito da vida é fazer as pessoas cresceram, não é?

Lidão: Uma música inesquecível:

Antúlio: “Cavaleiro do Sol”. Foi uma homenagem que eu fiz a Luiz Gonzaga e, por isso, busquei remeter aos sons do Sertão. Virou tema de abertura do filme “O Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, o qual retratava esse ambiente. Acho que se existe uma música da minha autoria que vai atravessar gerações, será esta. Ela representa o sentimento do povo. As pessoas dizem que ela vai no inconsciente e faz as mesmas se identificarem.

“Semente Vermelha” é outra música que vai marcar a minha carreira, criar um divisão. Eu fiz para um evento de rabequeiros e inseri um toque eletrônico. Pela primeira vez, eu uni o instrumento de raiz, a rabeca, ou seja, a semente, com o uso da tecnologia, um novo contraste, o vermelho.

Lidão: Momentos marcantes:

Antúlio: Como músico, eu poderia citar Montreaux, o Free Jazz, diversos eventos de porte internacional. Em 1987, com uma orquestra que acompanhava o Balé Popular, percorri a França, durante três meses, executando mais de oitenta espetáculos. Mas há outros momentos também que me tornam realizado. É ver, no Sesc Belenzinho – SP, numa plateia lotada, em pleno domingo de manhã, em baixo de sol, todos atentos escutando a “Ave Maria”, no serrote. É você tocar uma ciranda e sentir as pessoas unidas numa grande roda, dançando com verdadeiro êxtase. É isso que me move.

 

Lidão: Próximos projetos:

Antúlio: O show mais recente foi o “Passo no Sertão”, em homenagem ao centenário de Luiz Gonzaga, neste ano. Pegamos músicas do “Rei do Baião” e adaptamos para o Carnaval. Temos vários shows em elaboração, também em sintonia com o centenário de Gonzaga, para os festejos juninos; para festivais, como o de Garanhuns; possíveis programações no exterior, com Alceu, Josildo Sá, Cezinha. Atualmente, estou desenvolvendo um trabalho junto à construção civil, incluindo uma pesquisa que encontra melodias nos instrumentos de trabalho, tais como britadeira, furadeira, latas de tinta etc. Desta pesquisa, derivará o espetáculo “Um concerto para um conserto”.

Alguns instrumentos de Antúlio:

Cabala
Construída com bambu e fios de cobre. Toca-se, dedilhada com a mão direita e utilizando vidros de remédio, na mão esquerda, para deslizá-los sobre as cordas. Feita a partir de uma cabaça.

Marimbaça
Também feita a partir da cabaça. Também possui cordas e, no seu modo de tocar, lembra um violoncelo.

Serrote
Um serrote comum, tocado com um arco feito de crina de cavalo. O som lembra o de um violino.

Tubo Sonoro
Conjunto de conduítes de fiação elétrica. Serve como instrumento de sopro.

Garrafone
Instrumento circense, feito com garrafas de vidro.

3 thoughts on “Antúlio Madureira: 35 anos fazendo um mundo mais artístico e musical”

  1. Maria Brígida Alves Vieira disse:

    Aplausos Luciana Andréa Freitas, perfeita matéria,admirável sensibilidade… Nos presenteando com o # Magistral Antúlio Madureira!*

  2. José Nogueira disse:

    Parabéns ao Lidão e à Luciana Andréa Freitas pelo importante e competente registro, exaltando esse guerreiro da nossa cultura que é o Antúlio Madureira.

  3. Zita Coutelo disse:

    LU
    Linda matéria sobre Antúlio Madureira.Curti muito.
    Parabéns!
    Madrinha Zita.

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