LIDÃO

Notícias que você viu e que você nunca viu

Maciel Melo: poeta e músico brasileiro tão da bexiga de bom

Autor de sucessos gravados por grandes vozes do país, contagia com seu ritmo, encanta por sua poesia e valoriza nossa mistura cultural

Maciel Melo

No Brasil, houve um tempo em que algo, para ser considerado relevante, tinha de vir de fora. Manter o sotaque e persistir no desafio de fazer a própria arte, enraizada nas referências da expressão local eram coisas de um “sonhador”. Luiz Gonzaga já havia aberto o caminho, mas poucos conseguiam percorrê-lo. Maciel Melo não sossegou. Correu o país, destacando-se em festivais de música, pedindo passagem para seu verso inconfundível e fazendo os corações baterem no ritmo da zabumba. Hoje, com mais de uma dezena de álbuns, sucessos de âmbito nacional e um DVD que impulsionou ainda mais sua carreira, está com a agenda lotada de shows. Estes vão animar desde o Interior e a Capital Pernambucana, até as terras do Tio Sam.  Preparando outro DVD, a ser lançado em dezembro, e já trabalhando o CD novo “Minha Metade”, consagra uma caminhada de 30 anos, neste momento de valorização da nossa cultura, o qual ajudou a construir.

Sua História começa pelo contato com os cantadores de viola, emboladores, sanfoneiros, bandas de pífanos; pela vivência no Sertão do Pajeú, suas manifestações folclóricas reveladas em dias de festa e propagadas como diversão de um povo sofrido. Pernambucano, natural de Iguaraci-PE e tendo vivido parte da juventude em Sobradinho – BA, e em Petrolina – PE, herdou do pai, mestre Heleno Louro, tocador de sanfona, o gosto pela música e o talento de botar todo mundo para dançar.  Andarilho, pesquisador e bom ouvinte, aprendeu logo cedo a fazer uso da riqueza de ritmos tão característica do nosso país, provinda da mistura de raças, a qual deu origem à extensa diversidade cultural que conhecemos.

Debaixo do seu chapéu, sai xote, xaxado, baião, todos os ritmos que compõem aquele “forró fiado tão da bexiga de bom”, dando continuidade à obra de grandes músicos, os quais possui como referência, dentre eles, o velho Lua e Jackson do Pandeiro. Mas não se basta ao hoje difundido pé-de-serra, envereda pelo maxixe, gafieira, valsa e muitas outras leituras. O gingado está no sangue e a poesia, na alma. Antenado com todas as tendências, ouviu de Bob Dylan a Chico Buarque. A ampla cultura, a partir do que ouviu, leu, presenciou, aliada ao poder da escrita e ao romantismo do menino sertanejo, deu-lhe a verve para elaborar verdadeiros clássicos da música brasileira.

Maciel Melo

Bonitas de ouvir, gostosas de dançar, suas canções trazem em si componentes os quais as tornam únicas, representantes de uma marca consolidada. Têm dedo ou o corpo todo de Maciel, seja pela linha melódica, seja pela brincadeira com as palavras ou ainda por revelarem elementos peculiares da História do cantor e compositor. Em “Que nem Vem Vem”, seu primeiro sucesso a estourar nas rádios, na voz de Flávio José, em 1991, e regravado por Elba Ramalho, em 1992, logo se vê que o seu canto “tem as manhas que o mestre Louro plantou”. “Caboclo Sonhador”, hino de cada cidadão que luta por um lugar ao sol, entoado por Flávio José, em 1992, e seguido por outras grandes vozes, como Fagner, Amelinha e o próprio Maciel, remete à estada deste em São Paulo. A batalha por espaço para a sua poesia o fez deixar, no início de carreira, a terra natal e muitos entes queridos, sempre presentes em suas letras.

O primeiro impulso foi quando o Quinteto Violado gravou “Erva Doce”, em 1985. Não tardou para intérpretes do quilate de Xangai, Vital Farias, Dominguinhos e vários outros prestigiarem seu talento. Determinado a carimbar a sua marca, Maciel viajava para cada estado do país onde houvesse um festival, uma chance de mostrar a sua arte. Ganhou diversos prêmios. Dentre eles, um 1º lugar, no Canta Nordeste, da Rede Globo, em 1995, com “Meninos do Sertão”, parceria com Petrúcio Amorim, também gravada, em 2000, por Zé Ramalho, entrando como trilha sonora da novela “Marcas da Paixão”, da TV Record. Em 2003, conquistou as telonas, com a participação de Zéu Britto, em “Dama de Ouro”, incluída na trilha da comédia romântica “Lisbela e o Prisioneiro”, dirigida por Guel Arraes e estrelada por Selton Mello e Débora Falabella.

Outro exemplo do reconhecimento atingido foi a repercussão de público e de mercado do seu primeiro DVD, “Isso Vale um Abraço”, gravado em 2008 com plateia totalmente lotada, no Centro de Convenções de Pernambuco.  Maciel repetiu o sucesso de bilheteria este ano com o novo DVD “A Cidade e o Sertão”, uma de suas cartadas para celebrar os 30 anos de trajetória. A obra, que estará em circulação a partir de dezembro, vem com participações de Jessier Quirino, Clã Brasil, Chico César, Jorge de Altinho, Cezinha, Maviael Melo etc. Também dentro das comemorações, está o CD “Minha Metade”, contando com Zeca Pagodinho, Fagner, Alceu, Dominguinhos, Quinteto Violado e realizando duas homenagens a Luiz Gonzaga. Sem contar as cantorias, shows nos quais apresenta seu som com banda de 15 a 20 pessoas, intercalando-o com os seus causos, na companhia de poetas de primeira linha, como Geraldinho Azevedo e Xangai.

Maciel Melo, de modo muito carinhoso, abriu as suas portas, para uma entrevista exclusiva ao Lidão. Confira.

Maciel Melo e Luciana Andréa Freitas

Lidão: Conta um pouco da sua História. Como tudo começou?

Maciel:   Eu fui criado num meio musical. Meu pai era músico, tocava sanfona e o lugar onde nasci e vivi a infância era situado numa região muito fértil culturalmente, ligada aos violeiros, cantadores de viola: o Sertão do Pajeú. Sou natural de Iguaraci (a 363 Km do Recife). Fica perto de São José do Egito, Tuparetama. Minha História começa por aí, pelos repentistas, emboladores, bandas de pífanos, aboiadores; pelas feiras; forrós de pé-de-serra. Tudo isso são elementos presentes nas minhas músicas. Saí de Iguaraci em 1974. Fui para Sobradinho. Passei dois anos e, em 1976, cheguei a Petrolina, que deu a partida na minha carreira. Foi lá onde pisei no primeiro palco e também ganhei meu primeiro festival. Fui campeão com a música “Cheia”. A partir desse momento, não parei mais. Colocava a mochila nas costas e andava o país inteiro, inscrevendo-me nesses concursos. Em 1983, fui morar em São Paulo, tocar nas noites de lá. Em 1985, o Quinteto Violado gravou uma canção nossa e as coisas foram acontecendo.

Lidão: Músicas mais gravadas:

Maciel: A minha música mais gravada foi “Caboclo Sonhador”. Teve outras também bastante prestigiadas: “Que nem Vem Vem”; “Tampa de Pedra”; “Dama de Ouro”, que entrou para a trilha de “Lisbela e o Prisioneiro”; “O Velho Arvoredo”; “Retinas”… E bota etc. aí. [:)] Teve muita gente boa que gravou as minhas músicas: Elba Ramalho, Flávio José, Fagner, Amelinha, Zé Ramalho, Xangai, Quinteto Violado…A princípio, todo mundo daqui, Dominguinhos, Irah Caldeira…Esta lançou um disco inteiro de canções minhas.

Lidão: Geralmente, a obra fala muito sobre o artista e a gente tem a impressão de que, no seu caso, as dicas oferecidas por você são bem claras. Você parece evidenciar a sua História em muitas letras. Com relação ao “Caboclo Sonhador”, por exemplo, cite alguns desses elos com a realidade:

Maciel: Realmente, nas minhas letras, eu venho sempre inserindo personagens e elementos que fizeram e fazem parte da minha História. Pessoas da minha família, amigos. A presença deles é como se fosse uma tábua de salvação para eu não perder o elo com as minhas raízes, que é uma coisa a qual eu prezo muito. É um fiozinho amarrado para eu não perder o caminho de volta. Quando eu canto “Mega e Quinha como vão? Tá tudo bem”, esses são Miguel e Marcos, meus irmãos. Em “ao lembrar-me das bravuras de Neném/perguntar-me a todo instante por Bahia”, estou me referindo às minhas irmãs, Socorro e Marli. Tem uma música na qual eu falo em Geraldinho Azevedo, em Celestino, um artista plástico lá de Petrolina. Eu gosto de fazer essas homenagens.

Maciel Melo

Lidão: Homenagens ao Rei do Baião:

Maciel: Acho isso muito positivo. Espero que se mantenha, vá além desse momento do centenário. Há um tempo atrás, pouca gente queria ser forrozeiro, porque dizia-se que era cafona e tal. Eu sempre homenageei Luiz Gonzaga e vou continuar homenageando. Ele foi o maior cronista do cotidiano do nordestino. Pegou todas as referências da nossa História e criou aquele personagem, com o chapéu do cangaceiro, o gibão de couro. Usou o seu dom para brigar por nós, cantar os lamentos do nosso povo, costumes.   Em julho, eu farei uma turnê nos Estados Unidos, para um tributo ao Rei do Baião. Dia 13, vou me apresentar no Linconl-Center, em Nova Iorque. Depois sigo para a Carolina do Norte, Atlanta e Nova Jersey.

Lidão: Agenda de Junho:

Maciel:  No dia 08, eu fiz São João da Capitá, aqui no Recife. Dia 09, Gravatá e Santa Cruz. Dia 13, tem Petrolina – Ilha do Massangano. Em 15, vou estar na Praça do Arsenal da Marinha, no Recife, junto com Geraldinho Azevedo e Xangai, dentro do projeto Cantorias. Em 16, vou para Caetés; 17, Caruaru; 21, Arcoverde; 22, Bonito e Pátio de São Pedro (Recife); 23, Recife de novo, desta vez no Parque Dona Lindu, também com as cantorias; 24, Petrolina; 28, Lagoa do Carro; 29, Igarassu; e 30, Canhotinho. Em julho, no dia 01, farei Itapetim e Afogados da Ingazeira; e, no dia 09, estarei na Fenearte, no Centro de Convenções de Pernambuco.

Lidão: Projetos atuais:

Maciel: Eu venho trabalhando o disco novo “Minha Metade”, o qual vou lançar em comemoração aos meus 30 anos de carreira. Com participações de Zeca Pagodinho, Zé Ramalho, Elba Ramalho, Fagner, Alceu Valença, Dominguinhos, Geraldinho Azevedo, Quinteto Violado… Tem duas homenagens a Luiz Gonzaga: “Que nem Jiló”, que eu canto com Zeca Pagodinho; e “Assum Preto”, com Alceu. Ou seja, o álbum terá um pouco de Gonzagão, como sempre teve. E vamos contando com parceiros novos, para os quais a gente busca dá um espaço, porque é gente de muita qualidade, como é o caso de Flávio Leandro e Chico Bezerra.

Em dezembro, lançarei o DVD novo, com participações de Jessier Quirino, Clã Brasil, Chico César, Jorge de Altinho, Cezinha, Maviael Melo (meu irmão), Beto Ortiz, Genaro.

Por último, eu venho escrevendo um livro há mais de três anos, o qual é uma forma de preencher o ócio. Quando eu estou em casa descansando ou acaba a conversa, aí eu vou para o computador. Consiste num romance autobiográfico, chamado “As Aventuras do Discípulo de Pedro Maravaia”. É um doido que vive lá na minha cidade. Interior é danado para ter essas figuras, sujeitos que falam sozinhos, ficam cantando em beira de estrada. O livro vai contando as histórias de Neguinho de Heleno, que sou eu – Heleno é o meu pai. Há um capítulo no qual eu falo só em doidos. Puxa para o lado cômico. Tem uma história de um doido conversando com o poste e com o paralelepípedo. A gente insere um pouco de ficção, mas também é fiel ao cenário desse lugar. Tem um capítulo sobre Padre Cícero, Lampião e aos poucos vão surgindo as ideias. E bote tempo para tudo isso ficar pronto. Por enquanto, sem previsão de lançamento.

2 thoughts on “Maciel Melo: poeta e músico brasileiro tão da bexiga de bom”

  1. Zita Coutelo disse:

    Lu
    Que maravilha seu artigo sobre Maciel Melo.
    Você é TAMPA e o orgulho da madrinha.
    Te amo!
    Beijos

    1. Luciana Andréa Freitas disse:

      obg, queridíssima!!! sempre sempre pelo incentivo!!! <3 Bjooo

Deixe uma Resposta

Seu endereço de email não será publicado.

*