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Rogério Andrade: um baluarte do frevo

Bonjardinense, vencedor do primeiro Frevança, traz sempre surpresas, remetendo ao melhor do Carnaval

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Músico, cantor, compositor e arranjador, Rogério Andrade é um amante da cultura do seu Estado e ao longo de sua vida tem se tornado um dos maiores defensores do ritmo que mais representa a alma pernambucana: o frevo. Autor de sucessos em outros gêneros, como “Forró Varonil”, do disco “Forró pra 500 anos”, do sanfoneiro Arlindo dos 8 Baixos, esse artista natural de Bom Jardim-PE, teve sua história sedimentada pelo som do Carnaval. Destaque desde criança, foi músico na sua cidade e logo fez parte de conjuntos históricos do Estado, como a Orquestra de Frevos do Recife, do Maestro Duda, e a Orquestra Popular do Recife, criada por Ariano Suassuna. Ganhador do primeiro Frevança, mantém-se firme preservando a mais eletrizante das tradições pernambucanas, com um repertório cheio de novidades.   Para animar os dias de Momo de 2013, homenageou seu primeiro instrutor musical, apresentando “Saudades de Mestre Teté” e, para 2014, preparou “É Tangolomango, meu bem”, inspirado no livro de Raimundo Carrero.

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Maestro Duda e Rogério Andrade [DIVULGAÇÃO]

Rogério June de Andrade Lima ingressou nas partituras, tocando clarinete, no Grêmio Lítero-Musical Bonjardinense, regido pelo maestro Manoel Pessoa dos Santos, o Mestre Teté. Foi premiado ainda criança, sendo o “Garoto Revelação do Sax”, num dos primeiros programas infantis da TV brasileira, o “Gurilândia”, na antiga TV Jornal do Commercio, hoje TV Jornal. Em sua experiência tocando instrumentos, ressalta como um dos momentos marcantes de sua carreira, uma apresentação realizada em 1973, em São Paulo, com a Orquestra de Frevos do Recife, junto com o Quinteto Violado. “Foi emocionante. As pessoas que estavam na plateia muitas não conheciam o frevo de rua, aquele que é só instrumental, e foram ao delírio. Eu me senti como quem realmente defende o Estado”, declara.

No currículo de compositor, guarda o título de campeão do 1º Frevança, festival de músicas carnavalescas promovido pela TV Globo e Fundação de Cultura da Cidade do Recife, em 1979. Venceu, na categoria frevo de rua, com “Carnaval em Bom Jardim”. Mas, sem dúvidas, uma das suas obras mais tocadas é “Ninguém Segura o Sport”, frevo-canção produzido em 1975, a fim de homenagear o seu time de coração, marcando a vitória deste no Campeonato Pernambucano, após 13 anos de espera. Transformado em hino da torcida, cantado a cada jogo desde então, foi regravado, integrando o CD “Frevando na Ilha”, o qual reuniu todas as suas composições para o clube e também homenageou os cem anos do ritmo pernambucano.

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Compositor Rogério Andrade agradecendo título de campeão do 1º Frevança (1979). [DIVULGAÇÃO]

Levantando a bandeira da paz entre as torcidas, juntamente com vários outros artistas da Região, sempre foi ligado aos desportos. Reverenciou, em suas obras, atletas do Estado, de várias modalidades, e produziu o clipe, veiculado pela TV Globo, em 1994, com a música “A Seleção no Recife”, de sua autoria e do irmão, Romero Andrade, celebrando o tetra na Copa do Mundo. Porque o seu esporte é fazer festa, marcar os momentos inesquecíveis, principalmente, resgatando o melhor do período momesco. Uma atitude em sintonia com o músico, seu contemporâneo dos tempos da Jovem Guarda e hoje escritor aclamado Raimundo Carrero, que, no livro “Tangolomango: Ritual das paixões deste mundo”, situa sua personagem no universo do Carnaval, nitidamente inspirado no Galo da Madrugada. E isso só podia dar frevo.

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Júri do 1º Frevança (1979). [DIVULGAÇÃO]

Rogério Andrade, muito gentilmente, cedeu a seguinte entrevista exclusiva ao Lidão.

Lidão: Como é sobreviver no mundo da música?

Rogério: Não só o artista nordestino, mas o brasileiro, em modo geral, continua com as antigas dificuldades de patrocínio. Muitas empresas ainda não atentaram para o fato de que é importante patrocinar o artista local, até porque, em alguns casos, estas podem se beneficiar do chamado incentivo fiscal. Conclusão:  autores e compositores ficam com as suas obras guardadas, esperando a aprovação de um ou outro patrocínio. E haja paciência!!!!

Lidão: Qual sua opinião sobre a “Lei Momento do Frevo”, sancionada no Recife em 2013 e provinda do projeto do vereador Marco Aurélio Medeiros, a qual prevê que o frevo toque, pelo menos, uma vez por dia nas rádios recifenses?

Rogério: Brilhante ideia. Há muito tempo se fala sobre essa questão, a qual considero bastante lógica. Perguntamos: como podem os foliões pernambucanos cantarem os seus frevos durante o Carnaval, se as emissoras de rádio só começam a divulgar as novas músicas a partir de janeiro do ano seguinte?  Isso quando algumas rádios se propõem a tocá-las. Em contrapartida, as outras músicas oriundas do sul/sudeste e da Bahia já vêm tocando há bastante tempo em diversas mídias. Essa é uma situação, no meu ver, dificílima de solucionar, porque depende de maiores investimentos, pois, para muitas instituições, tanto da iniciativa privada, quanto da pública, a Cultura será sempre considerada como um supérfluo.

No caso do frevo, um cidadão centenário, é bastante lamentável a desatenção se levarmos em conta a sua contribuição para a arte. Trata-se de uma música de boa qualidade de modo geral: é melódico, harmônico.  Os frevos de rua, os quais consistem em composições instrumentais, são elaborados, em quase a sua totalidade, cerca de 98%, por músicos, maestros, pessoas que estudaram a teoria e vivenciam a prática musical. Com respeito aos frevos de bloco e frevos-canção, do ponto de vista literário, a maioria não tem letra apelativa. Apesar de reconhecido , recentemente, como Patrimônio Imaterial da Humanidade, o ritmo não recebe a devida atenção da mídia.

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Capa do CD “Frevando Na Ilha”. [DIVULGAÇÃO]

Lidão: Fale a respeito do seu último CD, o “Frevando na Ilha”

Rogério: A inspiração foi os cem anos desse ritmo, completados em 09 de fevereiro de 2007. Foi uma data muito importante, a qual deveria ter recebido o merecido destaque. Por isso, compus um frevo de rua, que intitula o álbum. Este reúne todas as minhas composições em homenagem ao meu time do coração, inclusive a música “Ninguém Segura o Sport”, gravada em 1975, e a mais recente “Sport – Campeão da Copa do Brasil 2008”.

Lidão: Sabemos que tanto você, como vários outros artistas têm levantado a bandeira da paz entre as torcidas, seja cantando, seja opinando nas mídias acerca do assunto, o que você tem a dizer com relação a isso?

Rogério: Quase sempre, enquanto figuras públicas, próximas a torcedores, que cantam nossas músicas, somos solicitados a opinar sobre essas questões, as quais também são bastante difíceis de resolver. Claro que ninguém de bom senso concorda quando a competição chega a esse nível das brigas – o contrário do que deveria ser o objetivo do desporto, o chamado fair-play, ou seja, jogo limpo, o espírito de competir pela alegria do congraçamento. Mas achamos que isso não se resolve apenas com a repressão policial. Incluam-se aí as drogas, população carente, baixa autoestima, o período rebelde da adolescência, necessidade de autoafirmação etc. Todos esses assuntos devem ser levados em conta. Daí o grande esforço empreendido pelo Ministério Público, clubes de futebol e demais autoridades responsáveis no sentido de  encontrar a solução para o problema.

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Rogério Andrade e Yane Marques, atleta pernambucana de destaque mundial, para quem o artista fez música. [DIVULGAÇÃO]

Lidão: Mas, voltando ao frevo, é verdade que você homenageou o seu primeiro instrutor musical?

Rogério: O frevo de rua “Saudades de Mestre Teté” me ocorreu pela passagem dos 80 anos do Grêmio Lítero-Musical Bonjardinense (20/10/1932). Foi pensado para o Carnaval de 2013, como uma forma de homenagear esse grande maestro, seu fundador e regente e que foi responsável pela minha iniciação musical. Foi emocionante ouvir, pela primeira vez, nos ensaios, a Banda da Aeronáutica executar esse frevo, sob a regência do Sub-Oficial Ivan Espírito Santo.

Lidão: Agora fale um pouco sobre a surpresa para 2014, “É Tangolomango, meu bem”:

Rogério: Carrero é realmente um escritor que retrata bem a alma do nosso povo, sobretudo, o nordestino, nossas crenças, o Carnaval, o cidadão comum. Isso se deve a sua experiência como jornalista e de conhecedor, tanto da realidade interiorana, quanto da Capital, para onde veio ainda jovem. Como sou contemporâneo dele, o “Tangolomango”, na cena em que Guilhermina faz o streep-tease, na cobertura do Cine Trianon, remete-me aos saudosos Carnavais do Recife. Refiro-me, principalmente, à época do Corso, quando, vez por outra, aparecia de repente, uma mulher embriagada, em plena Avenida Conde da Boa Vista ou em praça pública, a tirar a roupa para delírio da galera. A música é nossa homenagem a esse belo livro e à história de todos que vivenciaram esses bons momentos.

 

Trecho da música Forró Varonil – Rogério Andrade,
no CD Forró pra 500 anos, por Arlindo dos 8 Baixos

Ninguém Segura o Sport – Rogério Andrade

 

2 thoughts on “Rogério Andrade: um baluarte do frevo”

  1. irineu jr disse:

    Rogério de Lourdes de Biu de Epitácio, aluno do saudoso Mestre Tethé, desde há muito tempo como relata, tem na alma, a música como alimento, como expressão de sua bomjardinindade musical, com talento e vibração pelo que faz, que chega a contagiar a todos seus amigos e admiradores.
    Desejando sucesso, receba uma grande abraço do seu conterraneo.
    Juninho, de Irineu de Neusa de Dona Santa

  2. Rogério Andrade disse:

    Valeu, Juninho,grande conterrâneo.

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