LIDÃO

Notícias que você viu e que você nunca viu

Uma nova descoberta sobre Clarice

Cena do filme / Atriz: Stella Maris (Foto: Lucas Hero)

clarice_descoberta_do_mundo_04

Que mistérios tem Clarice? Entoando a melodia de Caetano, muitos se deliciam com essa pergunta. Poucos estudiosos, no entanto, tiveram a coragem de seguirem um caminho honesto, árduo na tentativa de decifrá-la ou pelo menos darem subsídios em prol de nossas interpretações. Para os milhões de amantes de Clarice Lispector, do Brasil e do Planeta, este mês de aniversário da escritora reserva um presente que tem a ver com essa busca. Um trabalho realmente fundamentado em pesquisa, coletas incessantes de dados, depoimentos, investigação a fundo da História. O resultado está aí, o filme “A Descoberta do Mundo”, de Taciana Oliveira, lançado nacional e internacionalmente, em dezembro 2015, com estreia no Recife, no Cine São Luís, neste domingo (13), às 15h. Trata-se de um composto de dois audiovisuais, os quais abordam vida e obra da contista e romancista: um documentário e uma ficção.

Na quinta-feira (10), em comemoração ao aniversário da autora ucraniana que se declarava pernambucana, a Livraria Cultura, do Shopping Rio Mar, no Recife, sediou o evento nacional “Hora de Clarice”, o qual ocorre simultaneamente em várias regiões. Na oportunidade, houve um bate-papo com a pesquisadora, integrante da equipe de produção dos audiovisuais, Geórgia Alves; a diretora Taciana Oliveira; e o escritor Raimundo de Moraes, que leu alguns contos Claricianos. Foi uma conversa sobre a escritora, a mulher e, claro, acerca do longa, com direito a algumas revelações em primeira mão.

clarice_descoberta_do_mundo_06

Hora de Clarice na livraria Cultura – Recife

No filme, há menção a um conto inédito, trazendo a história de três freiras que brincavam na praia”, provoca Taciana. A pesquisadora Geórgia também dá uma deixa. “O documentário foi gravado em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, e resgata material inédito da sua última passagem pela capital pernambucana”, disse.  A diretora Taciana afirma que fez questão de fazer um profundo garimpo em busca do novo. “Incomodava-me não ter Clarice falando ou ter de utilizar trechos daqueles vídeos já bastante conhecidos. Daí eu descobri uma entrevista com ela, a qual o Museu da Imagem e do Som restaurou. E esse material revela um outro lado dela, mais bem-humorado, diferente do que se vê em sua conversa com Júlio Lerner amplamente disseminada na Internet.”

Geórgia Alves, Taciana Oliveira e Raimundo de Moraes

Geórgia Alves, Taciana Oliveira e Raimundo de Moraes

Corroborando também para o seu lado, digamos, mais áspero, muitas de suas obras afloram as angústias da mulher Clarice. Na visão de Taciana, ela sofreu muito desamparo, carência, inúmeras inquietações, sobretudo, tendo de conviver com a esquizofrenia de Pedro, seu filho mais velho. A dor do ser humano, por exemplo, se vê em “A Paixão segundo G.H.”, de acordo com o escritor Raimundo de Moraes, “a obra mais filosófica da Literatura brasileira”. “Aquele momento em que ela come a barata na verdade é um processo de negação. Ela está digerindo a criação de Deus. Passa a aceitar o universo e rejeita a sua vida, nega a sua pessoa”, analisa.

Apesar dessa densidade de sentimentos expostos por Clarice com tamanho orgulho e muitas vezes dando margem para entendermos os nossos, existia uma outra Clarice, mais leve, brincalhona até. “Ela deve ter tido uma infância alegre. Todos os amigos são unânimes em dizer que possuía bom humor. Uma prima dela disse que ela contava piada o tempo todo. Quando mais madura, divertia-se, saía para tomar cerveja.”, relatou Taciana. “Não só demonstrava bom humor, mas defendia a liberdade de vivenciar a felicidade”, complementou a pesquisadora Geórgia. Pode-se constatar isso também em suas obras, como em “Felicidade Clandestina”.  A pesquisadora ressalta ainda a relação desse sentimento da autora com o Nordeste, quando menciona que é uma palavra inventada pelas pessoas da região.  Além de outros inúmeros sinais da presença marcante do Nordeste e, principalmente, Pernambuco, na sua vida e personalidade.

Cena do filme / Atriz: Stella Maris (Foto: Lucas Hero)

Cena do filme / Atriz: Stella Maris (Foto: Lucas Hero)

Segundo Raimundo de Moraes, Clarice é uma esfinge. De fato, os mistérios de Clarice sempre vão se perpetuar e continuar a existir, e a equipe da produção teve o cuidado de respeitar isso. “Ao mesmo tempo em que tento chegar perto, distancio-me, dando espaço às interpretações”, declara Taciana. Mas o filme nos dá um novo sol sobre o tempo nublado, uma nova “Claricidade”. “Com base nesses dados, eu a vejo como uma pessoa amorosa, alegre. Ela sempre foi a menina no Recife, sempre se sentiu assim”, definiu a diretora. Do ponto de vista da escritora, a pesquisadora Geórgia resume. “É como se a nossa dor antes fosse um algodão muito grande, complicado de carregar, um emaranhado de coisas difíceis de nomear e, por isso, assimilarmos. Ela dá uma palavra para cada sentimento e então fica mais fácil de entendermos. Ela pega o algodão, molha, coloca dentro de uma caixa pequena. Coloca tudo isso na palma da nossa mão”.

Cena do filme / Atriz: Cynthia Falabella (Foto: Lucas Hero)

Cena do filme / Atriz: Cynthia Falabella (Foto: Lucas Hero)

Serviço:

Filme: “A Descoberta do Mundo”

Realização: Zest Artes e Comunicação

Direção: Taciana Oliveira

Roteiro: Taciana Oliveira e Teresa Montero

Participações:   Beth Goulart, Cristina Pereira, Ferreira Gullar, Nélida Pinõn, Alberto Dines, Affonso Romano de Sant´Anna, Marina Colasanti, Lêdo Ivo, Maria Bonomi, Luiz Carlos Lacerda, Sara Escorel, Rosa Cass, Paulo Gurgel Valente, Paulo Rocco, Nicole Algranti,  Marcia Algranti, Nidia Ferreira, Sofia Montero, Augusto Ferraz, Vera Barroso, Wal Schneider e Grupo Teatral “No Palco da Vida”.

Exibição no Recife

Com presença do amigo da autora Augusto Ferraz, que fala sobre cartas inéditas trocadas com Clarice, e do psicanalista Fernando Santana, presidente da Sociedade de Psicanálise do Recife (SPR).

Dia: 13.12.15

Hora: 15h

Local: Cinema São Luís

Deixe uma Resposta

Seu endereço de email não será publicado.

*